E por falar em DNJ... Que tal refletir um pouco sobre a morte?
Imagino ser do conhecimento da maioria dos adolescentes e jovens – de todas as idades –, na Diocese de Assis, que no dia 06 de novembro deste ano ocorrerá o DNJ (Dia Nacional da Juventude) na cidade de Maracaí-SP, cuja patrona é Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Será um momento único e muito especial após esses anos de atividades on-line por conta da pandemia do Novo Coronavírus, a qual afetou a todos profundamente de alguma maneira.
Exemplo de santidade
Pensando nisso tudo, lembrei-me de uma cena muito interessante no filme que retrata a vida da referida santa. Logo no início, ela e toda sua família estavam reunidos fazendo um piquenique num jardim, então Teresinha se aproxima toda alegre, oferece um pequeno buquê à sua mãe com algumas flores colhidas naquele local. Ambas se abraçam e a criança diz: “Mamãe, eu gostaria que você morresse!”, os pais estranham a afirmação, e sua mãe questiona: “Teresa, por que diz uma coisa dessas?” Ao que ela responde: “Porque eu quero que você vá para o céu, e você disse que é preciso morrer pra chegar lá”. Para além de saber se a referida cena realmente ocorreu, ela consegue bem sintetizar o modo como essa santa buscava viver sua fé e, a partir disso, são possíveis diversas reflexões cabíveis a todos nós, nesse cenário no qual recentemente sofremos com muitas mortes repentinas e inesperadas em escala mundial.
É muito bonito perceber a inocência e ao mesmo tempo a convicção e a sinceridade com a qual ela afirma aquilo, revelando, desde pequena, possuir uma fé bem solidificada em princípios genuinamente cristãos. Com a morte de sua mãe, houve muito sofrimento da parte dela e de seus familiares, mas, ao mesmo tempo, percebe-se certa maturidade no sentido de compreender a morte como uma passagem para a Eternidade, um novo começo e não apenas o fim de uma caminhada. Quando ela mesma vem a falecer, com apenas 24 anos, fica ainda mais nítida sua capacidade de ter pautado toda sua vida em busca da santidade com base na espiritualidade da “Pequena Via” e, sem sombra de dúvida, na percepção de que a existência humana terrestre é muito curta e precisa ser bem aproveitada segundo os desígnios de Deus para cada um.
No entanto, na grande maioria das vezes, percebemos entre as pessoas uma certa repulsa quando se trata de falar da questão da morte. É um assunto evitado pela maioria, geralmente considerado desconfortável de se comentar. Em alguns casos, encontramos velórios que mais parecem um “mercado de peixes” do que propriamente um momento para se despedir dos entes queridos e rezar por suas almas.
Especialmente nos dias de hoje, é uma triste tendência as pessoas se esquecerem da própria finitude e viverem como se fossem imortais, de modo a buscarem apenas por prazeres momentâneos que deixam como consequência um vazio existencial incalculável que pode levar a vícios e a uma vida desequilibrada em todos os sentidos. Nos dizeres do criador da Logoterapia, Viktor Frankl, “Sem sofrimento e morte a vida humana não pode ser completa”.
O dia de Finados
Nesse sentido, nossa Santa Mãe Igreja em sua imensa sabedoria, há muitos séculos, dedica especial atenção aos fiéis falecidos, exortando a todos que rezem pelas almas. A própria Didaqué (Doutrina do Apóstolos – datada do ano 100 d.C.) já fazia esse apelo. Com o passar dos anos, foi fixada uma data específica, 2 de novembro, propositalmente bem próxima à comemoração de Todos os Santos (1º dia do mesmo mês) a qual recebeu o nome de “Finados”, palavra oriunda do latim “fines”, que significa “limites”, “extremidades”.
Temos diante de nós um momento ímpar no ano o qual possibilita nos lembrarmos dos fiéis falecidos, rezar por suas almas e refletir sobre a própria caminhada cristã – em relação aos nossos pontos fortes e fracos em busca da santidade. Porém, não se trata apenas de um momento de tristeza, mas de gratidão pela própria vida e pela vida daqueles que dividiram sua existência conosco por algum tempo.
Mas, por que rezar pelas almas?
Quando as pessoas morrem, há três destinos possíveis às suas almas: céu, inferno e purgatório. No primeiro caso, sabemos que a salvação já está garantida aos fiéis – os santos, independentemente de terem sido ou não canonizados pela igreja. Assim sendo, são intercessores que não cessam de pedir a Deus por cada um de nós. Em relação ao segundo, Santa Catarina de Gênova afirma no texto O Tratado do Purgatório: “Aqueles que estão no inferno, por haverem-se encontrado no momento da morte com a vontade de pecar, levaram consigo a culpa infinitamente, e com ela a pena; que não é, entretanto, tanto como a que merecem, ainda que seja necessariamente sem fim”, ou seja, para elas de nada servem nossas orações, pois essas já se condenaram por toda a eternidade. Entretanto, não nos cabe julgar qual é o destino que cada alma teve, devemos apenas rezar por todas e Deus, em sua infinita misericórdia, saberá como melhor proceder.
Finalmente, em relação às almas do purgatório, essa santa diz: “Como (...) [elas] já não têm culpa do pecado, não têm outro impedimento para chegar a Deus que somente aquela pena que o retarda fazendo que seu bem-aventurado instinto não alcance esta perfeição”, é justamente a essas últimas às quais devemos direcionar nossas orações a fim de que elas atinjam a santidade, gozem da felicidade eterna e venham também a se tornar nossas intercessoras.
Podemos concluir nossas reflexões citando um meio bem eficaz de “auxiliar” as almas do purgatório apresentado pelo Catecismo da Igreja Católica nos parágrafos 1478 e 1479:
1478. A indulgência obtém-se mediante a Igreja que, em virtude do poder de ligar e desligar que lhe foi concedido por Jesus Cristo, intervém a favor dum cristão e lhe abre o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos, para obter do Pai das misericórdias o perdão das penas temporais devidas pelos seus pecados. É assim que a Igreja não quer somente vir em ajuda deste cristão, mas também incitá-lo a obras de piedade, penitência e caridade.
1479. Uma vez que os fiéis defuntos, em vias de purificação, também são membros da mesma comunhão dos santos, nós podemos ajudá-los, entre outros modos, obtendo para eles indulgências, de modo que sejam libertos das penas temporais devidas pelos seus pecados.
Referências
AQUINO, Felipe. Finados, a celebração da esperança cristã. Disponível em: <https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/finados-a-celebracao-da-esperanca-crista/>. Acesso em: 13 de outubro de 2022.
CANÇÃO Nova. Qual o significado do dia de finados na tradição cristã? 2 nov. 2011. Disponível em:<https://noticias.cancaonova.com/brasil/qual-o-significado-do-dia-de-finados-na-tradicao-crista/>. Acesso em: 16 de outubro de 2022.
CATECISMO da Igreja Católica. 2 ed. Brasília: Edições CNBB, 2013.
GÊNOVA, Santa Cataria de. O Tratado do Purgatório. In: AQUINO, Felipe. O Purgatório. 8 ed. Lorena: Cléofas, 2015.
SANTA TEREZINHA DO MENINO JESUS. Direção: Leonardo Defilippis. Produção de Novodisc Mídia Digital da Amazônia Ltda. Estados Unidos: Luke Films, 2004. DVD (94 min).
VIEIRA, Dom Benedicto de Ulhôa. Finados. 27 out. 2008. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/finados/>. Acesso: 10 de outubro de 2022.
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